Sexta-feira, Outubro 16, 2009

Esbarrei em mim num beco sem nome.
Olhei-me, não sei se me vi. Arrepiei caminho até uma encruzilhada, caminhos sobrepostos repletos de gente. Inúmeras caras por mim passaram sem me ver; outras sorriram, seguiram; poucas chamaram. Sem querer, sem que esforço algum me fosse exigido, vi meu corpo avançar entre esta gente. Arrastado. Meu corpo apenas.
Eu não estava.

Vejo agora no meu corpo as marcas de cada passo e adivinho-lhe os trajectos, as agruras passadas. Não sei porque me abandonei. Não sei sequer quando me perdi de mim. Sei que a viagem, por mais curta que no calendário se mostre, me roubou pulsações demais.
A viagem que no meu corpo se escreveu preenche-me agora os dias. Horas a fio, disseco o que foi feito de mim, conheço aquilo em que me tornei. Não sei se me encontrei. Não sei se me encaixo neste corpo trabalhado, com experiências que não partilhei e com as quais tenho de acertar passo.

Quero voltar para trás. Perdi-me da multidão que me arrastou e esmagou. Quero escolher outro caminho, terra batida que seja - não procuro de atalhos. Não sei se me quero assim, se este eu já não vai ceder, vergar-se perante esta gente forte que pensa saber para onde vai.
Não sei até onde chego com esta força. Mas parada não vou ficar.

Quinta-feira, Abril 16, 2009

Passai.
Negai essa vontade inata de olhar este canto.
Hesitações cobram instantes com juros altos
E nada há aqui que vos compense esse tanto.
Abutres.
Aqui não encontrareis angústia ou pranto.

Deixai-me.
O que aqui vedes nada mais é que vossa distorção.
Deduções, ilações,
Traços que são ilusões;
Pois estes nem esboços são
De algo que se nomeie 'emoção'.

Não.
Sois vós as vítimas de um desejo mórbido de desgraça alheia.
Pois não matareis aqui vossa sede.
Passai - nem olhai - que esta minha aparência
Conta apenas metade do que me mata a essência.