quinta-feira, março 12, 2009

Meu globo.

Por estes dias, deambulo.
Nem é aquele vazio amigo, que tantas vezes me vem abraçar em horas estanques. A este novo companheiro não lhe conheço o nome, sei apenas que me acompanha, feliz, quando me deito por estas noites, e acorda colado a mim, como que não querendo que abandone o isolamento que permitem os lençóis. Mas eu saio e ele segue-me.
Nem é aquele nada que me preenche comummente. É um formigueiro em todo o corpo, um peso sem forma à conta do qual arrasto os pés e combato ferozmente a vontade das pálpebras de beijar o chão. E ainda assim não páro. Mas sou inerte.
Dou voltas e voltas neste meu globo, tantas quantas tenho que dar para cumprir exigências. Mas este globo é pequeno e depressa me confunde os sentidos - páro. E percebo que já estava parada, estática. Apesar de eu não conseguir quebrar o globo e sair, há quem consiga entrar. Este pó que penetra, contra as leis de qualquer física, estas paredes de vidro, vai-se concentrando e cada vez me deixa ver menos. Cada vez paro mais. Já mal consigo ver o corropio do grande globo, a vida do mundo, dos outros e quase já nem a consigo imaginar. Estou estanque, sozinha.
Falta-me sonho, chama, delírio, ilusão, qualquer ideia de loucos que agite esta bola de vidro e a quebre em estilhaços. Um devaneio que seja, uma infantilidade! Que rache estas paredes translúcidas, que eu logo respiro loucura, encho o peito, cresço e calo de vez estes risos que acusam quem só vê e não sente. Preciso daquele ponto brilhante lá à frente que me faça esbugalhar os olhos e esboçar um sorriso delirante.

Por estes dias, deambulo num globo que trouxeram como recordação de uma terra encantada qualquer, pousado na prateleira. E já quase não vejo, mas sei: o encanto ficou do lado de lá.

segunda-feira, março 02, 2009

Atentados à poesia I

Falta-me brilho.
Falta um deslumbramento,
Desde o primeiro momento,
Um acelerar de batimentos só porque vim.

Não anseio protagonismos.
Repudio egoísmos,
Abismos de corações que consomem,
Corropem a pureza de um ser
Com um simples querer como o meu.

Peço um qualquer encanto
Que me cesse este pranto
De ser a única em tanto,
Tanto tempo que jamais desarmou,
Sequer provocou
Um recuo - um pasmar,

A quem quer que seja que a fosse cruzar.

Não houve para mim um resto sequer dessa essência,
Caso sem precedência,
Para que a Divina Regência me nomeou.
E assim condenou a nunca roubar,
Se tanto, um olhar,
Nem mesmo cativar
A sombra que sou.



Deixo-me, então, resumir a pó...
A que nem pó de estrela se pode chamar.

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Entra no quarto e enquanto fecha uma porta abre outra. Já que as paredes só têm ouvidos, dentro destas não há testemunhas para esta fraqueza. Esta que não perturba o silêncio que transborda deste quarto, só atinge sonoridades acutilantes na sua cabeça. As paredes têm apenas ouvidos e não olhos, pois se os tivessem denunciariam a incrível rapidez com que se despoja de uma pele que se cola com extraordinária perfeição àquele corpo. Não há ruga ou ponta mal acabada que a acuse de se mostrar quem não é.
Mira ao espelho a pele que sente, sua. Dá-lhe tempo para que respire do sufoco de mais um dia. E logo os poros desta pele, tão perfeitamente impedida de sentir, destilam o medo que outra pele camuflou. Começa então um cortejo, cadência lenta e marcada, de suspiros, delírios, apertos no peito e o que mais se permitir. Gritos abafados de uma falta de sentir.


Já não serve, esta pele. Puxa de um lado, um rasgo no outro; um ardor na pele que sente e que não se deixa cobrir. Mas não pode sair assim, como esconder agora tamanha fragilidade... que cresce, cresce, só de pensar em passar sob o olhar de alguém com o medo denunciado em cada pedaço de si. Falta oxigénio a este ar, não chega todo aos pulmões - acelera coração - ai não, quieto. Bate só para que viva, não te rendas a emoções.

Dói quando sente. Dói quando se impede de sentir.
Hoje dói tão somente existir.

domingo, fevereiro 22, 2009

Há horas desertas,
Dias eternos
Que remexe tralhas,
Rebusca em infernos,
Vividos, perdidos
Em estilhaços de instantes,
Contra um torpor desmedido,
Um corpo exangue.

Há momentos a fio
Que assemelham Eras
Em que não se encontra,
Só uma falta impera.

Não se encontra no espelho
Por mais que se procure.
É quando arde um vazio
De um nada, tão frio,
Que já quase se rende
Para que o mal não perdure.

Mas a dúvida prende,
Nada cala esta fome.
Mas que pedaço falta?
Que busca é esta, sem nome?






PS: Obriguei-me, literalmente, a escrever. Daí o resultado.

terça-feira, janeiro 27, 2009

Estado de sítio.


Tinha as coisas pensadas para, chegada a este ponto, fazer um balanço dos últimos meses. Um balanço positivo. Não o desminto, só o deixo por dizer, por enquanto.
É que não me sinto bem. Há aqui uma intempérie, um distúrbio qualquer dentro. Anda camuflado num irritante olhar embaciado, oco, sem fim e, por nada, extravaza numa estúpida e desnecessária mistura de irritação e nervosismo. E descontrolo.
Não sei o que é isto. Um culminar de pressões, uma fase mais emocional, desânimo de não ver esforços terem retorno... não me interessa, que suma! Ainda há pouco havia um encantozinho especial no dia-a-dia, parecia que em cada um fazia um bocadinho mais de descoberta deste mundo repleto de carácteres novos e agora ... não me apetece descobrir. Não havia em mim cansaço, não havia em mim falta ... nem há agora, simplesmente não há.

Poder-se-ia dizer que sequei, mas as janelas desta minha alma, atraiçoar-me-iam.

E como é que se muda um estado de que não se conhecem os traços?

sábado, outubro 18, 2008

Inércia.

Há coisas que não funcionam. Em Portugal? Muita coisa. E assim há-de continuar, porque não à vontade: nem de uns, para melhorar; nem de outros, para reclamar.
A coisa complica-se é quando, por umas coisas não funcionarem, deixamos também nós de funcionar. Aumenta o desgaste e a fasquia de tensão que a matéria pode suportar, diminui. Atingiu-se o limiar... e agora é ver faíscas em direcções várias, porque o que é vivo mostra sempre o 'basta', possa ou não pronunciá-lo.

Queria contar-vos uma história, mas não sei como, porque tudo o que escrevo, apago. Mas factos, são factos e, sem escrita rebuscada, são os que se seguem.

Chamam-lhe de 'sistema' e eu acho que ele me apanhou. A mim e à minha mãe, claro, que vive tudo também, se possível com mais agonia.
Ora eu acho que o sistema, depois de tanta tentativa, tanta choradeira, tanto remorso, me anda a querer dizer 'tu vê lá o que fazes..' .
Há uma coisa que se chamam 'equivalências', que agora já não se chamam assim porque, gente, estamos em Bolonha. Chama-se então 'creditação' formação, ou coisa que o valha. E é essa bendita creditação é o que me permite frequentar o 2º ano de fisioterapia em Coimbra, e não repetir o 1º. Passa-se que Bolonha entrou este ano, tanto na escola do Porto como nesta, portanto, à partida, a escola do Porto ( ou V.N.G.? ai..) não pode creditar as disciplinas, porque o sistema não existia, e as disciplinas também já não são aquelas. Mas em Coimbra há boa vontade, dizem que se há-de arranjar. Não sei é quando, dado que a ESTSP se mudou no dia 13, primeiro dia de aulas, para Vila Nova de Gaia, pelo que anda tudo num caos.
Não vos apoquentai, bem sei que falta brilho nesta história. Aqui o tendes: dizem-me agora que, dado que estou matriculada no Porto porque os prazos assim o obrigavam (a menos que me quisesse arriscar a ficar, de todo, sem escola alguma), terei de pagar lá 50% da propina - ilucido-vos - 450€. Sendo que, se é necessário dizer, eu ainda não assentei pés na escola nova.
Mas, atentai, acrescentam boas notícias (!): não estou a ser prejudicada, respondem-me dos serviços académicos. Sabeis porquê? É que em Bolonha não há faltas ! Obviamente que vou saborear muito melhor esta 'boa vida' de agora em diante.

Era para estar contente, não era ? Mas é que me parece que há aqui qualquer coisa que não se compadece com grandes euforias... digo eu.

quinta-feira, outubro 02, 2008

(re)Voltar.

Voltei ao Porto. Não, ainda não foi de vez.
Um dia - ir e voltar. E matei saudades, acreditem; matei mais que isso, até.
Vi a mesma moldura de sempre, de longe, o Douro sob os pés, as caves de olhos postos nas minhas costas, a ribeira a brilhar. E podia ter-me ficado por aí, guardava aquele retrato, como que de turista, e seguia.
Não fiquei. Fui matar esperanças.
Assentei pés no Porto e dei os mesmos passos que dei todas as manhãs de todos os dias úteis (e outros) que ali passei num ano. Marquei as mesmas pedras dos mesmos passeios. Os mesmos números nos autocarros, as mesmas nuvens negras que tento impedir que me inundem as narinas e poluam os sentidos. E com cada passo pisei o espírito de angústia. Mais um passo; pesa. Outro agora; e aguenta. Está apertado aqui dentro, não sei que se passa. Medo. Dói-me lembrar o ficou por viver. Envolve-me uma ideia fria do que vou repetir; está marcado, não há volta a dar.
Não quero dizer, mas não quero ter força.

Eu sei. Não há-de ser nada, tudo corre pelo melhor. O Porto não é assim tão mau, tenho é de ver mais, procurar. É isso.

Não tenho recomeço. Perdi.

Dia 13 faço restart na programação automática.
A Laura há-de voltar pelo Natal.


PS: eu não queria escrever porque sabia que ia atirar pra este alvo. Vós pedistes, disparou.

sexta-feira, agosto 01, 2008

Tempestades.

Perco o Tempo que não tenho
a pensar no que o Tempo faz.
Como passa, porque pára,
como carrega o que traz.

E é Tempo que vem de encontro a mim,
e me carrega para diante,
Tempo veloz que me condena
num marca-passo lacerante.

Limita-me desejos, anseios,
cria em mim amarras ao mundo.
Um Tempo que é sempre de sobra
e rasga momentos ao segundo.

Tempo é o que me puxa,
me atira sem comiseração,
para um vácuo onde esse Tempo,
que todo o Tempo me marca,
deixa de ser Tempo algum,
passa a ser só solidão.

sexta-feira, julho 18, 2008

Acorda, respira fundo e que o ar fresco te inunde os pulmões num fôlego só para todo um dia. Não olhes o tempo, és mais que isso. Define-te. Olha-te ao espelho e promete-te construir razões para sorrir, sejam elas cruas de realidade ou poeira de sonho. Olha-te nos olhos até descobrires quem és. Cumpre-te. Não deixes que desenhem por ti os traços que são teus. Nunca.
Sai de casa certa de que o que queres é o que vais ter, força tens tu de sobra.
Olha o céu e não o chão. Marca na calçada o passo certo da determinação que carregas. Não desvies olhares, sorri e sente o peito pleno com o sorriso que volta. Procura pormenores escondidos em coisas pequenas e simples. Aprende o que vale a pena.
Respeita-te. Declara-te tudo o que de bom tens à distância de um olhar alheio ou de uma vontade de mergulho mais fundo em ti. Descobre que é mais do que pensavas. Valoriza-te. Deixa ser o mundo a deitar-te abaixo e seres tu quem te faz erguer. Balança, tropeça, parte. E vê que só contigo consegues erguer a cabeça tão alto como dantes. Os outros só te conseguem mostrar metade do caminho.
Depois, dá. Testa, experimenta, com mistério, com algum pudor. Cativa. Vê quem se te prende e entrega-te. Não deixes por dizer. És mais, não tens o que perder.
Deita fora. Grita. Bate o pé. Chora. Luta e sente invadir-te uma força tão maior do que pensaste ter.
Concretiza. Orgulha-te. Partilha e delicia-te com isso.
Pensa e sente; afina esta díade.
Guarda e não esqueças. E sê inesquecível.
Não apagues, reescreve.
Põe o pé na estrada e desfruta cada passo, cada paragem, cada recuo nela.
Vive o que queres, vive o que podes, vive o muito e o pouco. Vive para alguém, de alguém, mas vive sempre por ti.

Vive por mim.

terça-feira, abril 08, 2008

Seja qual for a paisagem,
O ponto mais fundo que o olhar alcança,
Há sempre uma rocha,
Uma pedra, uma areia que dança.

Tenha-se uma obra qualquer,
Escultura, vitral ou tela,
Que há-de ter sempre nela,
Um traço mais feio,
Uma cor mais escura,
Dura e crua.

Conte-se uma qualquer história,
De entre quantas este mundo tem,
Haveis de encontrar sempre uma lágrima,
Ou um olho que a retém.
Alegria ou martírio que escondam,
Raiva ou loucura que expressem,
Não há quem,
Por pouco que viva,
Não lhe sinta o sal que tem.

E é salgada esta lágrima,
Só por não saber ao que vem.
Que se soubesse, ora era doce,
Ora amarga de desdém.

Aqui está um molho de gente,
Multidão num qualquer lugar,
Vede com atenção,
Que vos diz aquele olhar?

A pedra turva ou aguçada,
A cor escura que esconde a alma,
A lágrima a que só o amargo sente
Os olhos de quem está ausente,
Em certos dias são constante,
Noutros, sombra passante,
Mas sempre parte do que ela é.

terça-feira, abril 01, 2008

Não me vesti de negro,
Quando o brilho me levaste,
Com o meu último fôlego,
Foi-se a força que criaste.
Acabaste.
E eu de olhos fechados,
Cerrados para não ver,
Que metade do meu viver,
Da história que queria escrever,
Eram rascunhos riscados,
Rasgados.

Vesti-me de cinzento,
Quando largámos as mãos.
Vesti-me da cor que não tem definição,
Sem ponta de agitação,
Com a calma de quem já esperava,
Que uma guerra longa e sofrida,
Mesmo quando vencida,
Já não deixa sentir nada.



Sem jeito. Mas já há muito, mesmo muito, que não me saiam sequer dois versos. Decidi pôr.

quinta-feira, março 06, 2008

Medo

Há momentos em que não se conhece. Não. Quase que parece que a cada momento se conhece menos. Ou não se quer reconhecer. Quer e insiste em negar-se.
É feita de camadas. E cada vez é preciso mais tempo, mais paciência, mais esforço para conseguir penetrá-la por inteiro e conhecer-lhe a verdadeira essência. Toda ela é defesa, zelo. Se pudesse, viveria numa redoma. Mentira. Se pudesse, arrancava-O, O que lhe levanta o peito, origem de um batuque que magoa quando segue descompassado, tanta é a pressa de bater. Não o parava, que ele não para mesmo querendo, embora por vezes pareça que sim. Mas ela sente-lhe a falta, do batuque certo. É música ao ouvido, parte daquilo que é. O batuque. O que quer é salvaguardar-se. É demasiado arritmado para continuar a aguentar.
Está farta de deixar entrar pessoas. Rompem-lhe as camadas, chegam à essência e fogem no momento em que ela se levanta para abrir a redoma, por fim. Mais uma camada. Cada vez é mais difícil lá chegar. Será que se assustam? Não interessa. Basta. Quem chegar, já nem a descobre. Pura, de branco, ondulando como se fizesse parte desse imenso verde-mar. Quer selá-lo de vez. Hermeticamente.
Mas até já dentro da redoma ele bate descompassado ! Quem ousa ? Para quê?



Não acredita que vai cair. 'Nunca mais.'
Ingénua. Hoje e sempre.

domingo, fevereiro 17, 2008

Farsas

Não sei bem o que vou dizer, se vou ter um discurso coerente. Vai escorrer, como escorre cada momento ou sensação ultimamente em mim. Sem quê nem para quê. Sem sequência. Acontecem, só.
Hoje acordei e soube que precisaria do dobro da força para me levantar. Que hoje o dia requeria coragem. Era preciso um sorriso. Então colei-me ao espelho e construi-o. Um sorriso e todo um teatro para que nada me saísse mal. Para que nao transparecesse o estremecimento, a tempestade e o dilúvio interior. Que hoje eu sabia decor o que me esperava. Tinha bem encenadas as máscaras para cada momento. Por cada sentimento, uma farsa. Insegurança, raiva, ciúme, desespero. Fui preparada. Tudo ensaiado e o sorriso pronto para mostrar logo que necessário.
Enganei-me, a princípio. Afinal a ameaça não era tanta. Afinal eu estava à altura do desafio. Afinal consegui rir-me com vontade. Tive-me como salva, pelo menos deste desafio. Gosto efémero.
Nao consigo. Sei o que valho, sei que sou mais. Mas nao sou eu que estou lá. Dói. Revolve-me as entranhas. E o pensamento, com previsões hipotéticas do que fez ou está para fazer.
Chorar? Nao consigo. Hoje nao. Acho que perdi a bomba do peito a caminho de casa e como doeu menos, pesou menos, nem dei conta. Vou ver se o encontro numa berma qualquer amanhã.


Quero um conto de fadas à minha porta. Depressa.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Quem espera ...

Num dia acredito, no seguinte não. Tal como tu : num dia prometes futuro, o mundo partilhado entre nós; no seguinte viras costas, levas esse mundo nos braços e dá-lo a outra pessoa, como se nada fosse. Não suporto. E não o vou esconder. Já contive demais as palavras com medo que as usasses contra mim, com medo que deitassem por terra a nossa derradeira oportunidade. Chega. Eu já errei, tu também. Não chegámos aqui a mando de apenas um. Mas errámos e acertámos ambos, temos as contas certas. O castigo que vier a partir de hoje é maldade e eu não quero marcar-te dessa forma.
Dizes agora que adoras a forma como te trato e eu digo-te a ti que foi assim que sempre te quis tratar. Tu sabes que sim, que dou por natureza, até demasiado. Não o fiz antes por medo, inseguranças. Cresci imenso contigo, voltei a ter a ingenuidade que tanto me fazia chorar, que tantas marcas me causou, mas de que eu tanto gostava. Quis voltar a dar-me a ti sem restrições, porque o medo já cá não morava. Mas tinhas de abrir o baú outra vez. Estava tão bem escondido, tão bem cerrado. E eu ainda não vejo as sombras a cirandar pelo quarto, mas já as sinto e quase que as ouço, rindo de mim, vão-me consumindo. Não sabes já o que custa fechá-las de novo? E tu pensas que sabes, e eu gostava que sim, mas não sabes ... que cada vez que viras costas a presença delas é maior, que elas me assustam, me esmagam, me fazem querer desistir. e que de cada vez que prometes, mesmo quando mostras mais certezas, elas te comem metade das palavras e não deixam que o sentido chegue a mim.
Não quero ser lembrança, boa ou má, quero ser vivência, presente e futura.
Sou paciente, sei esperar, respeito o difícil, a luta, a prova e o desafio. O que é certo faz-se esperar e é a conquista do que não temos, do que temos de provar merecer que nos torna felizes. É a natureza humana.
Eu luto, cada dia. Coloco mais peso sobre o baú a cada dia, cada dia mais coberto. Luto cada dia para dar alento a um coração que se toma já por condenado porque nunca lutou assim por outro alguém. Luto para ter razão para sorrir durante todo o dia e só à noite deixar que as sombras, os medos me arranquem dos olhos as lágrimas que guardei.
E quando penso nisso parece-me ridículo, parece-me injusto, parece-me que mereço mais. Que tu digas o que queres, faças o que precises para ter o sorriso na cara e o peito cheio enquanto eu me resigno, abaixo a cabeça e me escondo a ouvir as mesmas melodias uma vez, outra e outra ainda. Tenho medo do cansaço, do desgaste de um sentimento que tanto queria viver.
Esperar... mas não quieta, junto ao mar, que ele já me conhece as fraquezas e guarda todo o segredo.. e em frente a ele posso cair que sei que me devolve sempre à praia. Esperar, mas viva, com risos infantis, simplicidades, afectos sem pedir porquê. Esperar. Mas com nuvens de algodão sob os pés, flores emaranhadas nos caracóis, brilho verde nos olhos ... e um mundo simplesmente encantado dentro do coração, para um dia ganhar vida e se deixar viver por nós.
À espera.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Dias...

Há dias em que tudo o que carrego é cansaço. O ar entra mais fundo, sai mais lentamente e todo este processo é pesado. O sol bate nas palpebras, os ruídos massacram os ouvidos, até que os olhos abrem, a custo, e há qualquer circuito que, tenha descansado muito ou pouco, recomeça. O corpo pesa-me imenso, tem vontade de ficar inerte, adormecido.
Há dias em que vontade em mim, há só essa. De resto, tudo é feito por uma força que não conheço e que conheço muito bem, porque já há algum tempo que é visita. E nestes tempos, que se faz da casa.
Sinto não saber o que faço ou porque o faço. E tenho uma angústia de não saber o que fazer, por isso, faço o que me dizem. Sobretudo canso-me de mim, às vezes. Quase que desisto, quase que me deixo ir.
Há dias em que quase tenho força e determinação, dias em que quase digo, dias em que quase mudo alguma coisa.
Mas, quando chega o outro dia, adormeço a força e a determinação, adormeço a vontade e o sonho e fecho tudo num canto de mim. E quando esse dia chega, adormeço o que sou.

terça-feira, julho 10, 2007

Não sei o que diga, embora haja muito em mente.
Não sei escrever. Conheço palavras, significados, até mesmo outras línguas... E nem isso me basta. Já não sei.
O que sei é que não tenho controlo. De nada. Que me sinto a perder qualquer coisa, alguém. De vez em quando. E que tenho vontade de o contrariar, de falar, de lembrar... De dizer 'ainda te sinto'. Mas não digo. Parece despropositado. Mas sinto. Sinto tanto, de tantas formas, para diferentes gentes. Sinto a quem esteve sempre comigo, a quem não oiço ou leio uma palavra há mais de 2 semanas, a quem afastei e me afastou e agora reencontrei. Até a quem me magoou.
Sinto mas não o lembro. Também a mim não o fazem. Não me sentem assim?

E tenho... Não sei o que tenho, não é medo nem ansiedade. É preocupação. E alheamento. E vontade de voltar atrás. Melhor, de não deixar o futuro vir. Não sei se lhe sobrevivo.



E isto não é nada. Que eu não estou triste. É só um cantinho da mente que trabalha sempre discretamente e de quando em vez discorre para o consciente uma torrente de...coisas.

sexta-feira, maio 11, 2007

Confrontos

Hoje é um dia meio triste. Hoje, sem aviso prévio, confrontaram-me com a realidade. Não que ela estivesse mais feia que o costume... Bom, a bem da verdade, estava um nadinha mais feia. Ou talvez estivesse eu menos pronta para a receber, assim, naquela dimensão. Hoje, hipocrisia entrou no meu dicionário. Dantes, eu via hipocrisia, hoje senti-a. E, ainda que indirectamente, ainda que pela boca de terceiros, a hipocrisia agarrou-me e, por momentos, esmagou-me. E depois vi que ela vinha de mãos dadas com a falsidade. E, por fim, com a cegueira. A minha cegueira.

Hoje é um dia meio feliz. Hoje, tornei-me renegada, marginalizada, involuntariamente. Hoje, conclui o processo de separação da amálgama de qualquer coisa que me rodeia. Hoje, percebi que consegui(mos) construir um cantinho sagrado, separado, mas puro. Hoje, vi em que é que sou diferente e em que é que os outros são iguais. Hoje, defini quem tenho e quem preciso. Hoje, vi que tenho a sorte de não precisar de mais.

Hoje foi mais um dia ... Bom.

quarta-feira, abril 11, 2007

Episódios

Coimbra, 23 de Março de 2007.

Sexta-feira de sol. Quente, como sempre são em Coimbra, por já ser uma cidade mais do 'enterior'. E talvez pela mesma razão se justifique o episódio que aqui relato.
Dirigi-me a Coimbra com a minha irmã para ir buscar o meu primo que chegava da Covilhã. O próximo comboio ainda tardava, pelo que fomos até à Martim de Freitas visitar a minha prima. Toca para a entrada e nós apanhamos o autocarro para voltar à estação. Calor e gente. Muita gente. E sacos de todo o tamanho e feitio a ocupar aquele espaço em frente à porta central que poderíamos ocupar, pelo que nos juntamos bem à beira da porta. Vou eu a recomendar o meu primo que se afaste quando a porta abrir para não correr riscos quando ela abre e verificamos que não acerta em nenhum de nós. Tanto melhor.
Mas o autocarro ia mesmo cheio. As pessoas que tentam sair, encolhem-se para passar por entre as que estão de pé e, numa das paragens, já com um pé fora outro ainda dentro, há uma senhora avantajada que lança um 'deixem passar..!' desdenhoso. ' É connosco? ' . Pois é. 'Eu até afastava, se tivesse para onde ir' - e reprimo o 'sua gorda' que estava mesmo a pedir para sair. Passou-se. Na paragem seguinte o autocarro apresentava-se tão ou mais cheio. Calor. Dor de cabeça. 'Farta de aqui estar, mas isto tem mesmo de parar em todas?'. Já só faltavam 4 ou 5 paragens, mas estava-se mesmo a ver que tinha de me chatear com alguma coisa. As pessoas começam a sair, comprimimo-nos ao vidro que nos separa dos lugares sentados, mas há um senhor simpático que do alto dos seus 70 anos e do fundo do umbigo em que já nem consegue pôr os olhos diz, curiosamente também já quase com um pé de fora e, coincidência das coincidências, com igual ou maior desdém 'vão lá p'ra marmelada para outro sítio!'. (...). 'Quê, mas era para nós, Gonçalo?' . Ele ri. 'Marmelada? Eu dizia-lhe já que não sou afincadamente apologista de meios encestos...' - digo para o chão, entre-dentes. A coisa estava montada. Começo a ouvir uns comentários de umas senhoras de 50 anos para cima, para não destoar, bem constituídas, que já tinham o caso como novela mexicana. 'Deixe-os la', home', que estão na idade!'. Fecha-se a porta. Dou a coisa por terminada, de olhos cerrados, tal era a paciência. 'Não liguem, filhos, tomara eu ter feito o mesmo! Tomara eu ter a vossa idade!'. 'Mas o que é que eu tenho a ver com isso?' - digo para o meu primo. Ele ri. 'Era o que me faltava agora!Que paciência...!Oh, gentinha...é por isso é que este país me...oh, que gente!'. E ele ria. E eu ria também...de nervoso. E ela tinha apoiantes que diziam 'sim, sim...' e ela ainda dizia 'ora essa..!'.
Mas quê, eu vou a falar com um rapaz de olhos postos no chão para não ter de olhar para a gente que me rodeia, comprimida contra um vidro, e há alguém que vê 'marmelada' nisto? Pois se fosse fruta, esmagada já estava..(!) mas sendo gente...
É que apontam o dedo ainda mais depressa que a gentinha adolescente...!

Mas eu gosto...destas viagens ao 'Portugal profundo'.


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PS: E eu só não me enervei mais porque pensava 'esta vai já para o blog...'

sexta-feira, março 09, 2007

(A)Fluências

Não há tema definido.
É do pressuposto que devem partir. Quero porque quero escrever, mas ... sem rumo. Pelo que deixo fluir...
E já que escrevo 'sem rumo', ocorre-me que é um pouco assim que ando. Também tenho deixado fluir. Como se, de um dia para o outro, alguém me pegasse na mão e a fizesse escrever a minha história, sem vontade própria. Faço-me entender? E, no entanto, não é que seja permanente, posso acordar bem e abrir portas a um mundo paralelo à tarde, ficando com o olhar baço e longínquo para o lado de cá.
Suspiros. Cansaço. E o não saber de quê? E sabê-lo, no fundo. E a desilusão? Essa persegue-me. Em tempos por ter medo de desiludir, noutros por ser desiludida. E pensar que é em mim que cai o erro? Não são as minhas fasquias para os outros demasiado altas? Será que eu mesma as passo? Mas eu sei que há quem passe...porque não?
Mudei. Não sei quando foi! Não dei por isso, posso jurá-lo. Ou descortinei um pouco mais de mim, quem sabe. Sei-me agora capaz de castigar, de amargurar. E, no entanto, sei-me tão idiota, tão ingénua como sempre. Sei agora que ingenuidade não é virtude. Já não gosto dela. Não gosto de ingenuidade aliada a bondade. Ainda menos quando se dirigem a quem nem uma nem outra merece.
Parece enigma? Todos somos. Mas tem-se mostrado entediante, o meu. Ainda mais os dos que me rondam. Muitos já nem enigmas têm. Segredos, talvez...tão negros ou tão rídiculos que melhor me faz não os saber.
Impulsos. Tornei-me impulsiva. Já era, talvez, um pouco. Agora sou extremamente. Não gosto do constante arrependimento que deles provém.
Há dias em que apetece fechar os olhos, adormecer por tempo determinado e, ainda assim, em quantidade razoável. Outros há em que apetece ver o mar. O mar preenche-me. Hoje fui ver o mar, e 15 minutos sentada em frente dele purificam como poucas coisas conseguem.
Que é que estou a escrever? Página de diário? Que horror !
Perco-me, escondo-me, fico só...só eu e música, que já é pedaço de mim. Afasto-me, mas reticente. Afasto, para voltar a seguir, porque não sou capaz. E às vezes tenho medo, porque...não quero entrar num ciclo que não consigo parar. E bater com a cabeça constantemente pelas mesmas razões. O coração aperta a olhos vistos.
Como é que se foge?
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Coisas interessantes? Quem é que me ajuda com as preparações para a universidade? Nunca vi coisa mais mal organizada...E dizem de boca cheia que no site está tudo muito explícito? Haja paciência!

PS: Gostei da manifestação dos brasileiros à presença do Bush por lá.Gostei! Confesso que ele pode dizer a frase mais inteligente do mundo que eu vou estar a olhar com cara de enjoada para a tv. Não sei. É a voz, a figura, a américa que ele representa. É o Bush! The guy makes me sick.

PS2: Quando é que as allstars passam de moda para eu poder proceder à aquisição de umas?



As minhas mais sinceras desculpas pelo post mais oco de sempre.

sábado, fevereiro 10, 2007

Hipocrisias - parte I

Hoje apetece-me falar sobre hipocrisia. Não, não me apetece, já bem me basta deparar-me com ela todos os dias, mas hoje é sobre ela que escrevo. Sobre um exemplo de hipocrisia, daí 'parte I'. Quando mais houver, de mais escreverei.
Casamento. Não, minha gente, não terei a ousadia de afirmar que o casamento é, por si só, um acto hipócrita. Até porque não o penso. Sim, para mim é um papel que não há necessidade de ser assinado, para outros será algo mais e respeito-o. Talvez eu mesma venha a mudar de ideias.
Casamento na igreja. Sabeis já do que falo? Pois passo a explicar, o casamento na igreja, hoje em dia, é regra, já não se fazem casamentos no civil, melhor dizendo, só no civil. Porquê? Ora, porque é muito mais requintado, muito mais chamativo, muito mais exibicionista. Enfim...c'est trés chic! E é aí mesmo que mora a hipocrisia. Nestes 'católicos não praticantes' que só praticam a religião no dia do casamento. Porque é bonito.
É-se católico porque se acredita em alguma coisa, ou até nem se acredita, mas fica bem. Ou dá jeito para o dia o casamento. Ou como nos casámos pela igreja, é sinal de que somos católicos. Mas praticantes não que dá muito trabalho. No domingo sabe bem ficar na cama e, de qualquer forma, para ir à igreja dormir a ouvir o sermão...não, para isso não. Sou católico não praticante, até está na moda.
Está bem, a festa é bonitinha. Que bom que é ter a família reunida e poder usar um lindo vestido com uma cauda de dois metros ou um belo fato com botão de rosa branco no bolso. Mas é um dia. E é um dia que supostamente devia ser pleno de sinceridade, de sentimento. É de mim, ou a hipocrisia destoa um pouco neste quadro?
Aproveitando a leitura do comentário do Zé, introduzo aqui, ainda dentro do tema, a questão do branco do vestido, de que me esqueci. Eu sei que esta sociedade se rege por fachadas, por aparências. Mas, havemos de convir que, à partida, a humanidade tende a progredir, a evoluir, ou não? Não é que seja sinal de evolução mas 'mudam-se as vontades, mudam-se os gostos' (troca propositada). Se não se aguenta a vontade de pôr a pureza e a castidade de lado, então trocam-se os gostos pela cor, troque-se o branco pelo rosa, pelo salmão, pelo que quiserem. Pelo vermelho, já que há gente a casar pela igreja que já tem um currículo invejável. Perdão, vermelho não. Vermelho é cor de paixão ardente, de pecado. E quem entra numa igreja para consumar um sentimento na presença do Pai, está limpo de pecados. Na presença do Pai que negam e ignoram todos os dias da sua vida.

Ah, e já agora, porque não escrever outro discurso? É que o 'promete amá-la e respeitá-la todos os dias da sua vida, até que a morte os separe' está um pouco demodé, não? Ou então sou eu que não estou a par dos avanços da ciência e, afinal, já se deslindou o fenómeno da ressurreição.

Peço desde já desculpas aos que pretendem casar pela igreja e até nem vão à missa.
Aprendei - é o karma. O meu é este, entre outros : falar, falar e acabar por ter de deixar uma nota aos que pertencem à outra margem, para que não se firam susceptibilidades. Ou talvez deixe de o fazer que no fantástico mundo da internet ainda não consta lápis azul. Vai havendo é alguma falta dele. Mas isso é assunto para outro post.

Pensamento do dia : 'Karma is the way of the universe to settle the score' @ Daniel, Laura, Liliana, Zé.